Estava Sol. Bom tempo. O tempo ideal para sair de casa e ir dar uma volta.
Um passeio pelo parque.
Por entre o verde, o castanho, o cinzento e o arco-íris de sentimentos que se cola ao pêlo num lugar tão naturalmente calmo.
É que aquilo de se estar trancado entre quatro paredes já não estava a dar com nada.
Um tipo cansa-se disso.
Ar puro.
Do bom e do fresquinho.
Daquele que sai das árvores e da relva e de todas as outras vegetâncias que por aí abundam.
Foi a panaceia que me curou todos os males.
E em menos do esfregar de um olho me pus em tal anfiteatro de cheiro a gardénia e a malmequer.
Os pássaros, irrequietos em toda a sua ligeireza, chilreavam em odes à Mãe Natureza.
As pessoas, aqui e ali de mão dada, andavam na passeata com a tranquilidade de para quem a vida não é sinónimo de azáfama.
E os amigos... ah, os amigos... os meus amigos... os meus cupinchas, esses encontravam-se - como que em repetição de tempos de antanho - no sítio do costume.
E estes tempos... que bons tempos voltaram a ser!
Como corremos e saltámos.
Como tropeçámos e solenizámos.
Como divertimo-nos e divertimos quem via a alegria de quem comemora a vida em boa companhia!
Foi mais do que sadio. Foi bom.
Foi mais do que bom. Foi doce.
Foi doce. Foi muito doce, mas...
Nada dura para sempre. A eternidade é apenas um mito.
Foi chegado o momento em que se mostrou iminente o regresso ao lar.
Antes, porém, e aproveitando o facto de ninguém estar a olhar, aliviei-me ali contra uma árvore.
Depois, despedi-me dos meus companheiros de galhofa e segui de novo rumo àquele local de poiso que me inspira segurança e que é, ao mesmo tempo, a minha prisão.
O regresso ao lar.
Feito no piscar do olho que ficou de sobra.
E, à minha espera, na soleira da porta, lá se encontrava: Ele.
Ele, que com palavras desmedidas me brindou com discurso repisado:
- "
Ó Maria, então tu voltastes-me a deixar a porta de casa aberta? Qualquer dia é que nunca mais vemos o bicho! E tu, já para dentro! Não podes sentir uma correntezinha de ar que é logo rua! Casa! Já!... Raios parta o animal!"
Palavras fortes. Palavras feias. Palavras amargas.
Que queimam a minha liberdade.
Porque não posso eu sair quando quero, se quero, e para onde quero?
Que injúrias terei eu feito para merecer tamanha cláusula de inferioridade?
Porque sou eu vítima desta absurda necessidade de mostrar quem é o dono e quem é o vassalo?
E porque tenho eu de me deixar subjugar?
Tanta pergunta... e tanto injusto obscurecimento na resposta.
Desisto. Resigno-me. Renuncio à luta com a mais mundana das complacências.
Dou-lhe a faca e o queijo.
E é fingindo ouvidos moucos às cruéis palavras do velho, tristonho e cabisbaixo, que me deito na minha cesta e me dedico a lamber os meus próprios tomates.